Ele me tirou para dançar. Eu, como se não conseguisse
raciocinar, só conseguia sentir o suor de seu corpo firme, seu cheiro suave e
masculino em seu pescoço tão próximo e tentador. Tentei deixar que ele me
guiasse na dança, mas certamente meu corpo, sentindo o roçar de suas pernas nas
minhas, seu braço em minha cintura, e sua respiração ofegante em meu ouvido,
queria ser guiado a outro tipo de dança. Um tango pouco sensual foi o mais
próximo que consegui chegar daquele homem que me encantou com seu magnífico
sorriso.
Foi o mais bonito que eu já vira em toda minha vida. E tão
natural, tão dele... Compunha com perfeição sua face máscula, acompanhando seus
olhos castanhos, doces e fiéis. Se eu acreditasse em amor a primeira vista,
aquele seria um caso de amor eternamente tórrido e suavemente terno. Sim,
certamente ele seria meu amor perene, pois foi a única vez que um sorriso fez
meu corpo tremer descontroladamente.
Não perguntem-se, caros leitores, o que foi feito de um amor
tão promissor. Este amor só esteve em mim. Foram meros segundos de uma ilusão
doce e infiel. Tempo suficiente para apaixonar-me. Também não tenham pena de mim. Lembrem-se, caros
leitores, eu não acredito em amor à primeira vista.
O sorriso que me arrebatou não era meu. Ele nunca dedicou a
mim seus olhares, seus sorrisos, seus beijos ou qualquer mínimo sinal. Mas,
como um egoísta, roubou de mim muitos
gestos e até mesmo alguns sonhos. E como se não bastasse, roubou um
pouco de minha alma de poeta, quando pediu que eu me dedicasse a por em papel
um pouco dela consagrada a ele.
E aqui estou, Pablo. Se você se une a esta corja de leitores
meus, me dedica um pouco de sua fidelidade, e com isso me dou por satisfeita.
Saiba que ainda estou pensando em você. Não porque alimento por você algum amor
platônico, mas porque ainda tenho meu corpo tremulo com a mera lembrança
daquela dança. E porque desejo bem muito ver novamente um sorriso como o seu,
só que desta vez, que este seja também meu...