Ela acordou angustiada, com aquela já tão conhecida vontade de tudo o que não tinha mais. Todos os dias, depois de acordar e antes de dormir, ela quase inconscientemente levava seus pensamentos a ele. Como ele estaria? O que ele estaria fazendo? Será que ele ainda se lembrava dela? Ele já teria encontrado uma louca mais louca que ela para preencher seu coração? Ele estaria feliz? Será que ele ainda a amava?
Todos os dias ela acordava e antes mesmo de ver as horas, olhava desesperadamente o celular, na iludida esperança de ver uma mensagem dele na tela. Uma mensagem como aquelas que ele enviava antes, desejando bons dias e com letras de amor. E ao ver, dia após dia, o vazio do nome dele naquela pequena tela, ela fazia uma oração silenciosa, desejando profundamente que ele estivesse bem, mais feliz do que ela nunca vira, mostrando aos sortudos que estariam a volta dele aquele sorriso que ela ama, e que antes fora dela.
Este dia não foi diferente. Ela olhou para sua cama, abraçou seu travesseiro, cheirou seu edredom. Procurou rastros dele, mas ali não havia nenhum. Só suas lembranças alimentavam a presença dele ali. Em poucos dias faria um ano que ele estivera em seu quarto. A primeira e única vez em que estiveram os dois naquele lugar que é tão dela, prestes a se amar.
Ela lembrava de tudo com exatidão. ..."mi vidi"..."Croissanterie"..."Chez Fondue"..."Toujours"...
Pensar em como tanta coisa aconteceu tão rápido e em tão pouco tempo a assustava. E hoje ela olhava pela janela e observava a chuva. A chuva que os banhou, fez com que eles se beijassem, fez com que eles se escondessem, fez com que eles se amassem. E era ainda mais assustador ver que nada daquilo estava acontecendo... há quase um ano. Hoje a chuva era só mais um sinal de que nada voltaria a ser como antes. Nem as mensagens, nem telefonemas. Nem um toque, nem um beijo, nem o carro. E tudo o que ainda existia deles estava vazio. O cheiro dele não estava ali naquela cama, nem naquele travesseiro, nem naquele edredom. Ele não estava ali.
Ela continuaria se perguntando diariamente sobre ele sem obter respostas, pensando no que eles poderiam ter sido sem a distância de tempo e espaço que este ano trouxe. E ao ver que nem o sol, nem a chuva trariam seu amor, voltou sozinha para o aconchego de seu edredom, sentiu o cheiro dele, não porque estava ali, mas porque sua memória lhe dava este presente. E chorou enquanto o dia passava.

